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Cafeterias e Experiências

Terceiro lugar: por que a cafeteria virou extensão da casa

Nem casa, nem trabalho: a cafeteria é o 'terceiro lugar' — o espaço onde a cidade se encontra. De onde vem o conceito e por que ele explica o momento das cafeterias.

Mariana Figueiredo Mariana Figueiredo · 4 min de leitura

Tem um tipo de saída que não é bem compromisso e não é bem lazer. Você não vai à cafeteria porque precisa de algo específico — vai porque, naquele momento, não quer estar em casa nem no trabalho. Quer um meio-termo: barulho de gente, cheiro de café passando, uma mesa que não é sua mas também não é de ninguém. Esse impulso tem nome, e explica boa parte do motivo pelo qual as cafeterias andam tão cheias.

O conceito do “terceiro lugar”

O termo vem do sociólogo americano Ray Oldenburg, que o popularizou no livro The Great Good Place. Para ele, toda pessoa precisa de três tipos de espaço na vida: o primeiro lugar é a casa, o segundo é o trabalho, e o terceiro é tudo aquilo que fica fora dessas duas órbitas — neutro, informal, sem hierarquia, onde a conversa acontece por acontecer. Bares de bairro, barbearias, praças, padarias antigas: historicamente, esses foram os terceiros lugares de cada geração. A cafeteria se encaixa quase perfeitamente na definição, e talvez seja hoje sua versão mais viva.

Terceiro lugar: por que a cafeteria virou extensão da casa

Por que isso ficou tão evidente agora

O home office mudou a relação das pessoas com os próprios espaços. Quando casa e trabalho passam a acontecer dentro do mesmo endereço — às vezes na mesma mesa —, a linha entre os dois desaparece, e a cabeça sente falta de um lugar que não seja nem uma coisa nem outra. A cafeteria virou essa válvula: dá pra levar o notebook, pedir um café, ficar duas ou três horas sem que ninguém estranhe, e ainda assim sair de casa. Não é à toa que cresceu tanto o público que trata a cafeteria como escritório informal — um comportamento que já rendeu um guia à parte sobre cafeterias boas para trabalhar e estudar, com tomada, wi-fi estável e um ambiente que aguenta ficar.

O que faz um lugar funcionar como terceiro lugar

Não é qualquer cafeteria que cumpre esse papel. Oldenburg descrevia algumas características que ajudam a reconhecer um terceiro lugar de verdade: é de fácil acesso, tem clientes regulares que se tornam quase familiares, o clima é despretensioso e ninguém cobra que você consuma rápido e vá embora. Repare como isso muda de um lugar para outro — tem cafeteria pensada para giro rápido de balcão, e tem cafeteria pensada para ficar. Nenhuma das duas está errada, só servem a propósitos diferentes. Essa diferença de vocação, aliás, é um dos pontos que separam a cafeteria de bairro da rede grande: uma aposta na intimidade e na memória do dono com o cliente, a outra na consistência e na praticidade. Os dois formatos podem funcionar como terceiro lugar — a diferença está em que tipo de vínculo cada um constrói.

Uma necessidade que não é nova, só ficou mais visível

Vale lembrar que esse desejo de ter um lugar neutro para estar não nasceu com o home office nem com as cafeterias modernas. Cidades sempre tiveram seus equivalentes — a mesa do bar, a calçada da padaria, o banco da praça. O que mudou foi a escala: hoje esse papel social recai com mais peso sobre as cafeterias, porque elas oferecem a combinação certa de conforto, tempo livre para ficar e um motivo simples para estar ali, que é pedir um café. Não é exagero dizer que, em muitas cidades, a cafeteria assumiu uma função que antes era dividida entre vários tipos de espaço.

Como achar o seu

Se você reconhece esse desejo — de ter um lugar fixo, nem casa nem trabalho, onde sente que pertence um pouco — vale procurar com atenção antes de adotar qualquer cafeteria como sua. Preste atenção em como o lugar trata quem fica mais tempo, se há conforto para ficar sem pressa e se o ambiente convida à conversa com quem está por perto. Para quem quer testar opções pela cidade antes de escolher a que vai virar rotina, o guia de cafeterias do Cafezall reúne endereços com esse perfil, filtráveis por características do espaço. No fim, o terceiro lugar ideal não é o mais bonito nem o mais badalado — é aquele em que você esquece o relógio por um instante e sente que também é seu.

Fotos: capa por Дмитрий Зайцев; imagem interna por Dũng Phạm — via Pexels.