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Variedades de Café

Tailândia: o café que nasceu dos royal projects

Nas montanhas do norte tailandês, o café substituiu outras lavouras por meio de projetos reais de reconversão agrícola. A história de um café que mudou vidas.

Mariana Figueiredo Mariana Figueiredo · 4 min de leitura

Nas montanhas do norte da Tailândia, onde a neblina desce cedo sobre as encostas e as noites são frias o bastante para lembrar o clima de altitude, existe uma cena cafeeira que poucos esperam encontrar num país mais associado a templos, arroz e chá. Esse café tem uma origem pouco comum: nasceu de um esforço deliberado para dar às comunidades das colinas uma alternativa de renda que não passasse pelo cultivo da papoula do ópio.

Da papoula para o café

Durante a segunda metade do século XX, projetos de desenvolvimento agrícola apoiados pela monarquia tailandesa — conhecidos como royal projects — chegaram às regiões montanhosas do norte do país com uma proposta ambiciosa: convencer comunidades que viviam do cultivo da papoula a migrar para culturas legais e sustentáveis. Entre as alternativas testadas, o café arábica se destacou. O clima de altitude, os solos de encosta e a tradição agrícola das comunidades locais formaram uma combinação favorável, e aos poucos os cafezais foram ocupando o espaço que antes pertencia à papoula.

Não foi um processo simples nem rápido. Trocar uma cultura já estabelecida por outra exige tempo, investimento e, sobretudo, a confiança das famílias que dependiam daquela terra para viver. Mas o resultado, ao longo das décadas seguintes, foi a consolidação de uma nova economia cafeeira em regiões que antes praticamente não apareciam no mapa do café mundial.

Tailândia: o café que nasceu dos royal projects

Terreno que favorece o arábica

O norte tailandês reúne boa parte das condições que o café arábica pede para se desenvolver bem: altitude elevada, temperaturas amenas e, em muitas propriedades, o cultivo à sombra de árvores nativas — uma prática que protege os pés de café do sol direto, favorece a biodiversidade ao redor da lavoura e costuma resultar em uma maturação mais lenta e uniforme dos frutos. Esse é o mesmo princípio por trás do que se chama cultivo à sombra, o shade grown, técnica adotada em diversas regiões cafeeiras de altitude ao redor do mundo e que também marca presença nas montanhas tailandesas.

O resultado nas xícaras costuma trazer perfil suave, acidez equilibrada e notas que remetem a frutas e a um doce delicado — características que ajudaram o café da região a chamar atenção de torrefadores e apreciadores fora do país, mesmo sem o alarde de outras origens mais tradicionais.

Uma cena própria, ao lado de vizinhos cafeeiros

Hoje o café do norte da Tailândia tem identidade própria: cafeterias especializadas, torrefadoras pequenas e produtores que apostam em processos cuidadosos de colheita e secagem vêm ganhando espaço tanto dentro do país quanto em mercados internacionais. É um cenário que se soma a uma região do Sudeste Asiático já conhecida pelo café — vizinho ali perto, o Vietnã construiu uma cultura cafeeira das mais reconhecidas do mundo, com um método de preparo icônico, o filtro phin, que virou símbolo de toda uma forma de tomar café no cotidiano. A Tailândia trilha um caminho diferente, mais recente e mais ligado à especialidade, mas que mostra como a geografia do café no Sudeste Asiático é mais rica do que costuma parecer à primeira vista.

Um café que carrega história

Vale lembrar que por trás dessa xícara existe uma história de comunidades reais, que precisaram reconstruir sua relação com a terra e com o próprio sustento. Não é um enredo de curiosidade exótica para ser consumido de forma superficial — é a trajetória de agricultores das colinas do norte tailandês que encontraram, no café, uma forma de manter suas famílias e suas tradições vivas, com dignidade e trabalho contínuo ao longo de gerações.

Para quem gosta de café e também gosta de entender o caminho que cada grão percorreu antes de chegar à xícara, a história do café tailandês é um bom lembrete de que, por trás de qualquer origem pouco óbvia, quase sempre existe gente reinventando o que sabe fazer — e o café, mais uma vez, aparece como parte da solução.

Fotos: capa por icon0 com; imagem interna por Michael Burrows — via Pexels.