Numa feira de cidade pequena do sertão, os folhetos de cordel balançam pendurados em barbantes, capas de xilogravura contando histórias antes mesmo de alguém ler a primeira estrofe. E não é raro que, entre um verso e outro sobre seca, coronel, cangaço ou amor, apareça uma cena tão simples quanto uma xícara de café fumegando na mesa da cozinha. O grão não é o assunto principal do cordel — mas é figurante quase certo, porque é assim que a literatura popular do Nordeste funciona: ela retrata o cotidiano, e no cotidiano do sertanejo o café sempre esteve por perto.

Um personagem do dia a dia, não do enredo
O cordel nasceu como poesia para ser recitada e vendida em feiras, herdeira de uma tradição oral que remonta aos versos de cantoria e aos romances trazidos por Portugal. Poetas populares — muitos deles anônimos hoje, outros que se tornaram conhecidos com o tempo — usavam a rima e a métrica para contar histórias de heróis, de justiça, de humor e de crítica social. Nesse universo, o café raramente é protagonista de um folheto inteiro. Ele aparece como aparece na vida real: no cenário. É o que se oferece a quem chega, o que aquece a manhã antes do trabalho na roça, o que acompanha a prosa na varanda enquanto a história do dia é contada e recontada.

A xícara como símbolo de hospitalidade
Há uma lógica cultural por trás dessa presença discreta. No imaginário nordestino que o cordel retrata, receber alguém em casa sem oferecer café seria quase falta de educação. A cena se repete de forma parecida em muitos folhetos que descrevem a vida rural: o viajante que bate à porta, o compadre que chega para o “dedo de prosa”, a família reunida depois da lida — e o café que surge quase automaticamente, servido em caneca ou xícara simples, como parte do ritual de acolhida. Não é preciso que o poeta explique o gesto; o leitor da época reconhecia de imediato o que aquela xícara significava.
Do folheto para outras telas populares
Essa capacidade do café de aparecer sem ser o centro da cena, mas ainda assim carregar significado, não é exclusividade do cordel. É um fenômeno que a cultura popular brasileira repete em várias linguagens. Da mesma forma como o café ganha cena no cinema e na literatura como atalho visual para intimidade, pausa ou reflexão, o folheto de cordel usa o cafezinho como recurso semelhante: um detalhe que ambienta a história sem precisar de explicação. E o costume atravessou o tempo — não à toa o cafezinho virou personagem fixo também nas novelas brasileiras, décadas depois dos primeiros folhetos pendurados nas feiras, provando que essa associação entre café e vida cotidiana está entranhada na cultura popular do país, não só no sertão.
Xilogravura, humor e a cena que gruda na memória
Vale lembrar que boa parte do charme do cordel está na capa: a xilogravura, gravura feita em madeira e impressa em preto e branco, com traços fortes e simplificados. Quando uma dessas capas retrata uma cena de mesa, de cozinha ou de encontro entre vizinhos, é comum que uma xícara ou uma cafeteira apareça no quadro — reforçando visualmente o que o texto já sugere. É um tipo de humor e de observação social que o cordel cultiva bem: pegar um hábito tão comum que ninguém repara nele e transformar em imagem que fica na cabeça do leitor.
Um traço de identidade que continua vivo
Não há como precisar quantos folhetos de cordel mencionam café ao longo da história do gênero, e seria arriscado apontar títulos ou nomes específicos sem a certeza de que a referência é exata — o importante aqui é o padrão, não o exemplar isolado. O que fica é a constatação de que, muito antes de virar assunto de blog ou de conversa de grupo de WhatsApp, o café já era parte do pano de fundo que os poetas populares do Nordeste usavam para descrever a vida como ela é: simples, hospitaleira e sempre com uma xícara por perto para receber quem chega.
Fotos: capa por Tito Zzzz; imagem interna por Eduardo Amorim — via Pexels.


