Seu café está sendo coado...

Pular para o conteúdo
Histórias e Curiosidades sobre Café

O café do pelotão: por que o espresso é ritual sagrado no Tour de France

Pogacar voou na 1ª montanha, mas antes de qualquer subida existe um gesto que o ciclista profissional não abre mão: o espresso.

Fazer espresso como no pelotão
Mariana Figueiredo Mariana Figueiredo Atualizado em 12/07/2026 · 6 min de leitura

Antes de encarar a primeira etapa de montanha do Tour de France, com Tadej Pogacar disparando morro acima como se a gravidade fosse opcional, houve um gesto silencioso que a câmera raramente mostra: uma xícara pequena, densa, tomada em poucos goles. O espresso é o verdadeiro tiro de largada do pelotão.

Pode parecer detalhe, mas dentro do ciclismo profissional o café virou um ritual tão sério quanto a escolha das rodas. E ele conta muito sobre a cultura que ronda essa modalidade — uma mistura de tradição europeia, superstição e prazer genuíno.

Uma paixão que nasceu na estrada

O ciclismo de estrada cresceu na Europa continental: Itália, França, Bélgica, Espanha. Não por acaso, são exatamente os países onde o espresso faz parte da rotina diária. Quando as grandes voltas passaram a atravessar vilarejos e cidades pequenas, o café da manhã dos ciclistas foi se moldando ao gosto local — e o cafezinho curto e forte colou de vez.

Com o tempo, o hábito deixou de ser apenas um começo de dia agradável e virou parte da identidade das equipes. Times profissionais viajam com máquinas de espresso profissionais, baristas contratados e até grãos escolhidos a dedo. O ônibus da equipe, aquele veículo enorme estacionado antes da largada, muitas vezes tem uma estação de café digna de cafeteria.

Existe uma lógica afetiva nisso. A rotina de um ciclista profissional durante uma volta de três semanas é dura e repetitiva: acordar, comer, pedalar centenas de quilômetros, recuperar, dormir, repetir. O café vira um dos poucos momentos de conforto e ritual estável em meio ao caos. É o cheiro que anuncia que o dia começou.

Se você quer entender como transformar esse mesmo ritual na sua cozinha, sem precisar de um ônibus de equipe, montamos um guia direto ao ponto.

Antes de chegar lá, vale conhecer o que faz esse hábito ser tão levado a sério dentro do pelotão — porque não é só questão de gosto.

Por que o espresso e não outro método

O espresso tem uma vantagem prática que combina perfeitamente com a vida de quem vive viajando: é rápido, é concentrado e ocupa pouco espaço. Uma máquina, um bom grão e alguns segundos separam o ciclista da sua xícara. Num café da manhã cronometrado antes de uma etapa, essa agilidade importa.

Há também a questão do sabor. O espresso entrega uma experiência intensa em pouquíssimo líquido — algo valioso para quem precisa controlar cada detalhe da alimentação durante a competição. É prazer concentrado, sem exagero de volume.

E existe o fator cultural que não pode ser ignorado. Para um italiano ou francês, tomar café coado no lugar do espresso soa quase como uma pequena traição. O pelotão é multinacional, mas a base cultural europeia ditou o tom. Se quiser comparar com outra tradição fortíssima, vale lembrar como o café turco também virou cerimônia em outra parte do mundo.

O barista da equipe existe mesmo

Pode soar exagero, mas várias equipes de elite levam profissionais dedicados exclusivamente ao café. A ideia é garantir consistência: o mesmo grão, a mesma extração, o mesmo sabor todos os dias, independentemente do país onde a etapa acontece. Para atletas obcecados por rotina, essa previsibilidade tem valor emocional real.

Esse cuidado revela algo bonito sobre a relação do esporte com o café: não é sobre performance mágica, é sobre conforto, foco e um momento de normalidade em dias extraordinários.

Os cafés à beira da estrada

Se dentro das equipes o espresso é ritual, fora delas ele vira paisagem. As grandes voltas europeias atravessam regiões onde parar num café à beira da estrada é parte da cultura ciclística amadora também. Milhares de cicloturistas seguem os mesmos trajetos das etapas famosas e transformam a pausa para o cafezinho em ponto alto do passeio.

Existe até um vocabulário afetivo em torno disso. Em vilarejos dos Alpes e dos Pirineus, pequenos bares se tornam lendários simplesmente por ficarem no pé de uma subida célebre. O ciclista chega suado, pede o espresso, olha a montanha que vai enfrentar e transforma aquele instante numa espécie de preparação mental.

É uma cena que o brasileiro entende bem, aliás. Trocando os Alpes por uma padaria de esquina, o cafezinho como pausa social e ponto de encontro é algo profundamente nosso — tanto que o assunto já rendeu história sobre como o cafezinho virou personagem fixo nas novelas.

A vitória de Pogacar na montanha é o tipo de momento que fica na memória do esporte. Mas por trás da explosão de força existe um ritual pequeno e cotidiano que sustenta a rotina — e você pode reproduzir a essência dele sem sair de casa.

Se ficou com vontade de trazer esse ritual do pelotão para a sua manhã, o passo a passo completo está logo aqui.

Perguntas rápidas

Preciso de máquina profissional para fazer espresso em casa?

Não. Existem opções domésticas de diferentes portes e faixas de preço. O que faz diferença de verdade é a qualidade do grão, o ponto da moagem e a consistência do preparo — cuidados que qualquer entusiasta consegue desenvolver com prática.

Só o espresso serve como ritual matinal?

De jeito nenhum. O ritual é sobre atenção e prazer, não sobre um único método. Se você prefere coado ou prensa, o gesto vale igual. Vale até revisar detalhes que mudam o resultado, como a pausa da pré-infusão no coado.

Por que os ciclistas gostam tanto de café?

Além do gosto, é uma questão de rotina e conforto. Em competições longas e cansativas, o café vira um momento estável e agradável dentro de dias intensos — um pequeno ritual que ajuda a marcar o início do dia.