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Variedades de Café

Brasil exporta 15,7% menos café — e a Alemanha toma o lugar dos EUA como maior comprador

A safra 2025/26 fechou com 38,5 milhões de sacas embarcadas, queda de 15,7%. Mas a receita se manteve e o mapa mudou: pela 1ª vez desde 2009/10, os EUA não são mais o maior comprador.

Mariana Figueiredo Mariana Figueiredo Atualizado em 16/07/2026 · 6 min de leitura

Saiu o número que fecha a safra 2025/26: o Brasil embarcou 38,5 milhões de sacas de café, uma queda de 15,7% em relação ao ciclo anterior, segundo o Cecafé.

À primeira vista parece má notícia redonda. Mas dentro dela tem uma reviravolta que ninguém viu chegando: os Estados Unidos deixaram de ser o maior comprador do café brasileiro.

Pela primeira vez desde a safra 2009/10 — dezesseis anos — quem ocupa o topo é a Alemanha. O mapa de quem bebe o nosso café está sendo redesenhado.

Vendemos menos e faturamos igual

O detalhe que desmonta a leitura pessimista: mesmo embarcando bem menos volume, a receita se manteve. O motivo está no preço.

O preço médio da saca exportada chegou a US$ 379,48 na safra 2025/26 — alta de 17,4% sobre o ciclo anterior e o maior valor da série histórica.

Ou seja: o Brasil vendeu menos café, mas cada saca valeu muito mais. Para o exportador, o ano não foi de perda; foi de rearranjo.

Indicador (safra 2025/26) Número Variação
Sacas exportadas 38,5 milhões −15,7%
Preço médio da saca US$ 379,48 +17,4% (recorde da série)
Maior comprador Alemanha 1ª vez desde 2009/10

Fonte dos números: Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil).

Navio cargueiro carregado de containers saindo do porto ao amanhecer
Gargalo logístico nos portos foi uma das travas físicas da safra. (Imagem ilustrativa gerada por IA)

Por que embarcamos menos

Três coisas se somaram, e nenhuma delas é falta de comprador.

Estoque no fim. O Brasil exportou como nunca em 2024. Aquele recorde consumiu os estoques, e não sobrou colchão para repetir o volume.

Clima na lavoura. A safra de 2025 apanhou do tempo. Menos café na árvore em ano de estoque baixo significa menos café no navio.

Gargalo no porto. Parte do que havia para embarcar simplesmente não conseguiu sair no ritmo necessário. Logística virou trava física da exportação.

Quando o estoque acaba e o preço dispara, a conta do exportador fecha mesmo vendendo menos. Quem sente a diferença é a prateleira — e ela sente depois.

A troca de guarda: Alemanha passa os EUA

Perder o posto de maior comprador depois de dezesseis anos não acontece por acaso. E o pano de fundo aqui é comercial, não de gosto.

As barreiras tarifárias impostas pelos Estados Unidos ao produto brasileiro pesaram nos embarques para lá — o efeito já aparecia nos embarques desde o ano passado e agora fecha a safra no número consolidado.

Enquanto isso, a Alemanha seguiu comprando. Vale lembrar que boa parte do café que entra em portos alemães não fica lá: o país é um dos maiores reexportadores e torrefadores da Europa.

Na prática, o café brasileiro continua indo para a mesa do europeu — só que passando por outra porta de entrada.

E a China, que estava comprando mais?

Aqui é onde muita gente se embanana, e com razão: a China virou cliente do café brasileiro e vem aumentando as compras. Como isso convive com uma queda de 15,7%?

Convive numa boa, porque são coisas diferentes. O total caiu por falta de café para vender — não por falta de gente querendo comprar.

Dentro de um bolo menor, alguns compradores encolheram muito (os EUA) e outros cresceram (a China). Participação e volume total são medidas distintas.

É a diferença entre “vendi menos” e “vendi menos para todo mundo”. A primeira frase é verdadeira; a segunda, não.

Mãos peneirando grãos de café verdes crus sobre mesa de madeira
Estoque baixo depois do recorde de 2024: não faltou comprador, faltou café. (Imagem ilustrativa gerada por IA)

O que isso muda na sua xícara

Aqui vale honestidade: exportação não vira preço de gôndola no dia seguinte. O caminho é longo e passa por torrefação, distribuição e varejo.

O que o número indica é o clima do mercado. Preço da saca em recorde e estoque baixo é o cenário que sustenta café caro — mesmo com a cotação tendo recuado dos picos recentes.

Para o consumidor, a leitura prática é simples: alívio no mercado internacional demora a chegar, e qualquer susto de clima na próxima florada reacende tudo.

Se o assunto te pegou pelo bolso, dá para reagir sem cortar a xícara. A conta do que sai cada café você faz na calculadora de custo por xícara, e os ajustes que economizam sem piorar a bebida estão neste guia.

O que observar daqui pra frente

Três termômetros valem mais que qualquer previsão de preço.

O primeiro é o clima nas regiões produtoras: geada e seca fora de hora mexem no mercado em questão de horas.

O segundo é a recomposição de estoque. Enquanto o Brasil não voltar a ter colchão, a oferta segue curta e o preço, nervoso.

O terceiro é a política comercial. Tarifa é canetada — muda o destino do navio sem mudar uma folha de cafeeiro.

Quem ganha e quem perde com isso

Num ano assim, o produtor bem posicionado comemora: vendeu menos volume, mas com a saca no maior preço da série histórica.

O exportador segurou a receita. Já a indústria que compra café para torrar e revender apanhou dos dois lados — pagou caro pela matéria-prima e não consegue repassar tudo sem perder cliente.

No fim da fila está você. O varejo é o último a subir e o último a descer, e é por isso que a sensação na gôndola quase nunca bate com a manchete do mercado.

É a assimetria clássica das commodities: quando falta, o preço voa em dias; quando sobra, ele desce devagar, com o freio de mão puxado.

Perguntas rápidas

Exportar menos é ruim para o Brasil? Não necessariamente. Nesta safra, o preço recorde manteve a receita mesmo com o volume menor.

Por que a Alemanha compra tanto café? Porque é um grande centro europeu de torrefação e reexportação — muito do que entra por lá segue para outros países.

O café vai ficar mais barato no supermercado? Estoque baixo e saca em preço recorde não são o cenário de queda. Alívio, quando vem, chega devagar à prateleira.

Isso afeta o café especial? Menos que o commodity. O especial trabalha com contratos e lotes específicos, com dinâmica de preço própria.

De onde vêm esses números? Do Cecafé, entidade que reúne os exportadores brasileiros e divulga os dados de embarque.

A safra 2025/26 fica na memória menos pela queda e mais pela virada: o café brasileiro continua indispensável no mundo — só que agora ele desembarca primeiro em Hamburgo, não em Nova York.