Enquanto a ministra do Planejamento, Simone Tebet, defendia nesta semana que o Brasil aumente em dois pontos percentuais a mistura de etanol na gasolina para absorver a produção que deixaria de ir aos Estados Unidos por causa do tarifaço, outro produto do agronegócio brasileiro vivia um desfecho bem diferente na mesma novela comercial: o café.
O que é, de fato, o tarifaço
Desde agosto de 2025, os Estados Unidos aplicam uma tarifa adicional sobre produtos brasileiros que chegou a 50% sobre parte da pauta de exportação, dentro de uma disputa comercial que passou por investigações da chamada Seção 301. Em julho de 2026, o governo americano divulgou uma nova rodada, com alíquota de 25% e uma extensa lista de centenas de exceções — produtos que ficam de fora da cobrança extra.
Café: da ameaça real ao alívio recente
Na primeira fase do tarifaço, em 2025, o café não entrou na lista de isenções, e o efeito foi imediato: os embarques do solúvel brasileiro para os EUA recuaram com força no segundo semestre daquele ano, e o preço do café pago pelo consumidor americano disparou, numa das maiores altas em décadas, segundo dados oficiais de inflação dos EUA. Foi um caso concreto de como uma tarifa encarece o produto do outro lado da fronteira e pressiona toda a cadeia — do exportador brasileiro ao consumidor final.
Já na lista divulgada agora, em julho de 2026, o café — tanto o grão verde quanto o solúvel — aparece entre os itens isentos da nova tarifa de 25%, ao lado de carne bovina, carne de frango, petróleo e aeronaves. Juntos, esses setores respondiam por parcela relevante do que o Brasil vendeu aos Estados Unidos no primeiro semestre do ano.

Por que os EUA abriram essa exceção
A justificativa apresentada é que se trata de produtos que os Estados Unidos não conseguem cultivar ou produzir internamente em quantidade e preço competitivos — caso do café, cuja demanda americana é suprida majoritariamente por importação, com o Brasil como maior produtor e exportador global. Entidades do setor, como associações de cafés especiais, comemoraram publicamente a isenção, tratando-a como um alívio depois de meses de embarques em queda e de busca por fornecedores alternativos em países como Colômbia e Vietnã.
Etanol entra pela porta que o café conseguiu evitar
É aí que a fala de Tebet se encaixa. Diferentemente do café, o etanol não escapou da nova rodada de tarifas — assim como açúcar, aço e alguns manufaturados. A proposta da ministra, discutida ao lado de outros integrantes do governo em uma região produtora de cana no interior paulista, é usar o mercado interno como válvula de escape: se o etanol brasileiro fica mais caro para o comprador americano por causa da tarifa, parte dessa produção pode ser redirecionada para o consumo doméstico, via aumento da mistura obrigatória à gasolina. É o mesmo mecanismo básico do café em 2025 — tarifa encarece, comprador reduz compras, exportador precisa de destino alternativo —, só que aplicado a um setor que, por ora, não teve o mesmo alívio.
O que ainda é incerto
Vale separar o que já é fato do que ainda é hipótese. É fato que o café brasileiro está, neste momento, fora da nova tarifa de 25% anunciada em julho. É fato também que a fase anterior do tarifaço já havia causado prejuízo real ao setor, com queda de embarques e alta de preços nos EUA — um estrago que a isenção atual não desfaz retroativamente. O que segue incerto é se essa condição de exceção vai se manter estável: disputas comerciais como essa têm mudado de formato ao longo do processo, e o mercado internacional de café segue sensível a clima, câmbio e à própria política comercial entre os dois países. Para quem acompanha o setor pelo lado do bolso — seja produtor, seja consumidor —, vale lembrar que pequenas variações de custo ao longo da cadeia tendem a aparecer, cedo ou tarde, no preço da xícara.
Por ora, fica o contraste: um produto que evitou a tarifa e um governo tentando, às pressas, criar em casa o destino que outro produto perdeu lá fora.


