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Histórias e Curiosidades sobre Café

Em Lisboa, o espresso se chama ‘bica’ — e o nome tem uma história curiosa

Em Portugal, pedir um espresso é pedir uma ‘bica’. De onde vem o nome, como pedir café em Lisboa e por que o café português tem gírias só dele.

Mariana Figueiredo Mariana Figueiredo Atualizado em 20/07/2026 · 4 min de leitura

Chega a um café em Lisboa, senta no balcão e pede “um café”. O garçom pode até entender, mas o jeito certo — o que faz você parecer que já morou ali — é pedir uma bica. É assim que os lisboetas chamam o espresso, aquele golinho curto e forte que em Portugal vira quase um ritual de dois minutos, tomado em pé, no balcão, entre uma frase e outra.

O interesse por Portugal como destino de viagem (e de vida, para quem sonha em morar fora) segue aquecido, e junto com ele cresce a curiosidade por essas pequenas diferenças culturais — a língua parece a mesma, mas o cardápio do café tem gírias que confundem qualquer brasileiro de primeira viagem.

De onde vem o nome “bica”?

Existe uma lenda charmosa, repetida em quase todo guia de viagem: “bica” seria a sigla de “Beba Isto Com Açúcar”, um aviso colado nas xícaras de um café emblemático do Chiado para convencer os clientes a adoçar um café que, na época, era servido bem amargo. É uma baita história — só que é isso mesmo, uma lenda popular, sem comprovação histórica sólida por trás.

A origem mais aceita por quem estuda a língua é bem menos poética: “bica” vem de “bico”, ligado ao bico ou torneira por onde o café escorria nas primeiras máquinas de expresso. O termo pegou em Lisboa e ficou — mesmo depois que as máquinas mudaram completamente. Vale contar a lenda como curiosidade de bar, mas sem jurar que é fato.

Bica no sul, cimbalino no norte

Uma das primeiras coisas que surpreendem quem viaja de Lisboa ao Porto é que o mesmo cafezinho muda de nome. No norte, o espresso costuma ser chamado de cimbalino — uma referência às antigas máquinas da marca italiana Cimbali, que dominaram os cafés portugueses décadas atrás. A bebida é a mesma; o batismo é que varia conforme a região, como acontece com tantas gírias de comida pelo Brasil afora.

Bica servida em xícara pequena num café tradicional de Lisboa
A ‘bica’: curta, intensa e servida em xícara pequena, o espresso à portuguesa. (Imagem ilustrativa gerada por IA)

O resto do cardápio (que ninguém te explica)

Depois da bica, o próximo desafio é decifrar o resto do menu. Quem gosta de entender a lógica por trás dessas bebidas — o tipo de grão, a torra, a forma de extração — pode gostar de comparar com o que se discute em como o café especial mudou a forma de preparar e apreciar a bebida, porque em Portugal essa cultura de balcão também tem suas próprias camadas de sofisticação, só que batizadas diferente.

  • Café pingado: a bica com uma gotinha de leite frio, quase imperceptível
  • Garoto: espresso com um pouco mais de leite e espuma, em xícara pequena — o nome brinca com a ideia de ser a versão “para criança” do café
  • Meia de leite: metade café, metade leite, servido em xícara maior
  • Galão: a versão mais leitosa, servida em copo alto — o primo distante do nosso café com leite
  • Abatanado: um espresso mais diluído em água quente, parente direto do americano

Por que vale aprender esses nomes

Não é frescura de turista: pedir certo em Portugal poupa aquele instante de confusão no balcão e ainda rende conversa com quem está servindo. Café, ali, é lento no jeito de beber e rápido no jeito de pedir — poucas palavras, muito ritual. E entender a origem por trás de cada nome ajuda a enxergar o quanto a cultura do café varia de país pra país, mesmo dentro da mesma língua.

Essa variação de vocabulário, aliás, é prima de outra discussão que vale a pena conhecer: a de como cada região do Brasil também tem seu próprio sotaque para o cafezinho, do jeito mineiro ao carioca. A gente muda o nome, muda o copo, muda o tamanho — mas a cerimônia em torno da xícara é sempre parecida.

Na próxima viagem

Se um dia você passar por Lisboa, esqueça o “café” genérico: peça uma bica, aprecie o golinho rápido e guarde a curiosidade da sigla para contar depois — deixando claro que é lenda, não certidão de nascimento da palavra. E se passar pelo Porto, troque de nome sem trocar de hábito: peça um cimbalino e sinta a mesma cerimônia, só que com sotaque diferente.