Quase toda conversa sobre café para na dupla arábica e robusta (também chamado de conilon por aqui). Faz sentido: são as duas espécies que enchem as prateleiras e os pacotes do dia a dia. Mas o gênero Coffea é bem mais largo do que essas duas estrelas, e duas parentes menos faladas — a liberica e a excelsa — vêm chamando atenção de gente curiosa sobre café, mesmo sem nunca terem virado produto de supermercado.

Arábica, robusta e o resto da família
Antes de chegar às espécies raras, vale lembrar por que arábica e robusta dominam o mercado: cada uma tem um perfil de cultivo e de xícara bem diferente, e essa diferença explica boa parte do que se paga e do que se sente no café do dia a dia — dá pra entender melhor o que separa arábica de robusta e conilon num raio-x direto dessas duas espécies. Fora desse par, existem outras espécies de café que também produzem frutos com potencial de bebida, só que ocupam um espaço bem menor nas lavouras do mundo — uma fração pequena perto do que arábica e robusta somam juntas. A liberica e a excelsa estão entre as mais conhecidas desse grupo secundário.

Liberica: folha grande, cereja grande, sabor diferente
A liberica é fácil de reconhecer no pé: folhas maiores, arbustos que crescem mais alto e cerejas visivelmente maiores que as de um cafeeiro arábica comum. Ela é cultivada há bastante tempo em partes do Sudeste Asiático — nas Filipinas ela tem até um nome popular, kapeng barako — e também aparece em regiões da África Ocidental. Costuma se adaptar bem a altitudes baixas e climas mais quentes e úmidos, justamente onde arábica sofre mais. Na xícara, quem já provou descreve notas que fogem do script habitual de café: às vezes mais amadeiradas, às vezes com uma doçura frutada incomum, dependendo de como o grão foi processado e torrado. Não é um perfil que agrada a todo mundo de primeira, mas é essa diferença que desperta curiosidade em quem já provou de tudo dentro do arábica.
Excelsa: espécie própria ou parente da liberica?
A excelsa é onde a história fica mais interessante — e mais indefinida. Ela chegou a ser descrita como uma espécie própria, batizada separadamente da liberica. Só que, com o tempo, parte da comunidade botânica passou a tratá-la como uma variedade dentro da própria liberica, e não como uma espécie totalmente independente. Essa discussão ainda não está fechada: dependendo da referência, a excelsa aparece ora como espécie à parte, ora como variação da liberica, e é comum encontrar afirmações categóricas nos dois sentidos — a real é que se trata de um debate botânico em aberto, não de um consenso definitivo. O que costuma ser mais consensual é o perfil de cultivo: assim como a liberica, a excelsa tende a se dar bem em condições duras para o arábica, e por isso segue cultivada, ainda que pouco, em regiões de clima mais quente.
Por que voltaram a chamar atenção
Duas coisas ajudam a explicar o interesse recente por essas espécies fora do trio principal. A primeira é climática: com regiões cafeeiras tradicionais enfrentando temperaturas mais altas e chuvas mais irregulares, espécies que já são naturalmente mais tolerantes a calor e umidade viram objeto de estudo como alternativa de resiliência para o futuro da lavoura. A segunda é o próprio movimento do café especial, que anda mais disposto a sair da zona de conforto do arábica de sempre. Não é coincidência que, ao mesmo tempo em que liberica e excelsa ganham espaço em rodas de conversa, o robusta também esteja sendo reavaliado dentro do universo especial — vale a pena entender como o fine robusta vem conquistando espaço no café especial para ver esse movimento por outro ângulo.
Difícil de achar, fácil de se interessar
Na prática, encontrar café de liberica ou de excelsa fora dessas regiões ainda é raro: não têm cadeia de distribuição parecida com a do arábica, e boa parte do que se produz fica no mercado local ou em lotes pequenos que circulam entre torrefações especializadas. Isso não diminui o valor de conhecer a história delas — pelo contrário, ajuda a enxergar o café como algo mais amplo do que os dois nomes do rótulo do supermercado. Da próxima vez que alguém disser que café é só arábica ou robusta, vale lembrar que a família é maior — e que parte dela ainda está sendo entendida até pelos próprios especialistas.
Fotos: capa por Quang Nguyen Vinh; imagem interna por Nay Sa Muel — via Pexels.


