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Variedades de Café

Café da Venezuela: o gigante que sumiu do mapa

A Venezuela já foi grande exportadora de café e hoje quase não aparece nas prateleiras. O que aconteceu e o que caracteriza o café venezuelano.

Mariana Figueiredo Mariana Figueiredo · 4 min de leitura

Tem um dado que costuma surpreender quem gosta de café: a Venezuela já foi, num passado nem tão distante, um dos grandes nomes da cafeicultura mundial, disputando espaço com os maiores produtores do planeta. Hoje o país quase não aparece nas prateleiras de café especial, e boa parte dos apreciadores nem sabe que aquelas montanhas andinas um dia exportaram grão para o mundo inteiro. É uma história de ascensão, esquecimento e — quem sabe — retomada.

Um gigante que o tempo apagou

Durante boa parte do século XIX e início do século XX, o café foi um dos pilares da economia venezuelana, chegando a rivalizar com os grandes exportadores da época. Fazendas subiam as encostas andinas, portos escoavam sacas para a Europa e para as Américas, e o grão ajudava a sustentar cidades inteiras. Não é exagero dizer que, por um tempo, a Venezuela esteve entre os nomes que definiam o mapa cafeeiro global — um patamar parecido com o que hoje ocupam países como a Colômbia, vizinha que soube transformar tradição cafeeira em identidade de qualidade reconhecida mundo afora.

Mas o século XX trouxe uma virada. Aos poucos, o país foi se afastando do café como prioridade econômica, e a produção entrou em declínio contínuo ao longo das décadas seguintes. Crises econômicas e políticas atravessaram esse período e pesaram sobre a lavoura, que perdeu investimento, mão de obra e infraestrutura de escoamento. O resultado foi um esvaziamento gradual: de protagonista, a Venezuela passou a figurar como coadjuvante distante nas listas dos maiores produtores de café do mundo, uma posição bem diferente da que ocupou no passado.

Café da Venezuela: o gigante que sumiu do mapa

As montanhas que ainda guardam o café

Apesar do apagão comercial, o café venezuelano nunca desapareceu de vez — ele só encolheu e se refugiou nas regiões andinas do país, especialmente nos estados de fronteira com a Colômbia, onde a altitude e o clima de montanha continuam favoráveis ao arábica. São áreas de relevo acidentado, temperaturas amenas e solos vulcânicos, o mesmo tipo de combinação que, em outros países da região, costuma render cafés de xícara elegante, com acidez viva e corpo equilibrado.

É justamente essa geografia que dá ao café venezuelano sua característica mais marcante quando ele aparece: por ser cultivado majoritariamente em altitude, tende a apresentar notas mais delicadas, doçura perceptível e acidez cítrica bem definida — traços clássicos de arábicas andinos de altura. O problema nunca foi a qualidade potencial do grão, e sim a escala: sem estrutura de exportação robusta, sem certificação consistente e sem volume, esse café raramente chega a sair do circuito local ou de pequenos lotes pontuais.

Pequenos sinais de retomada

Nos últimos anos, tem surgido um movimento ainda modesto de produtores tentando reposicionar o café venezuelano no mapa dos cafés especiais, apostando justamente na altitude andina como diferencial de qualidade em vez de tentar competir em volume. São iniciativas pequenas, isoladas, sem garantia de continuidade — mas que mostram que a tradição cafeeira do país não morreu, apenas ficou em compasso de espera. Se um dia esse movimento ganhar escala, é bem possível que o mundo do café volte a ouvir falar da Venezuela, desta vez pela porta da especialidade e não da commodity de massa.

Por que essa história importa

Contar a trajetória do café venezuelano é um lembrete de como a cafeicultura é sensível ao que acontece fora da lavoura: economia, política e infraestrutura pesam tanto quanto solo e clima na hora de sustentar uma cultura agrícola ao longo de gerações. É também um convite à curiosidade — da próxima vez que você provar um café andino de origem incerta, vale lembrar que aquelas montanhas já foram, um dia, sinônimo de grande café no mundo. E que talvez ainda voltem a ser.

Fotos: capa por Arturo Añez.; imagem interna por Rafael Y. — via Pexels.