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Variedades de Café

Café de Ruanda e Burundi: os cafés das mil colinas

Café de Ruanda e Burundi: os bourbons cultivados nas mil colinas da África Oriental, de acidez cítrica e doçura marcante. O que esperar.

Mariana Figueiredo Mariana Figueiredo · 4 min de leitura

Tem uma região do mundo que parece ter sido desenhada para o café: colinas que se sucedem até onde a vista alcança, altitude generosa e um clima ameno o ano inteiro. É assim que costuma ser descrita a paisagem de Ruanda e Burundi, dois países vizinhos na África Oriental que, apesar do tamanho pequeno no mapa, carregam um capítulo próprio e cada vez mais respeitado na história do café especial.

As mil colinas da África Oriental

Ruanda é conhecida como o “país das mil colinas”, e não é força de expressão: o relevo ondulado, resultado da posição da região no Rift Africano, cria um mosaico de microclimas que favorece o cultivo de café em pequenas propriedades espalhadas pelas encostas. Burundi, logo ao lado, compartilha características parecidas de solo vulcânico fértil e altitude elevada. Nos dois países, o café cresce principalmente nas mãos de famílias que cultivam pequenas áreas, cuidando de cada pé quase como se cuidasse de uma horta.

Essa combinação de altitude, solo e clima ameno é o tipo de terroir que costuma render grãos mais densos e complexos — não à toa a região vem ganhando espaço entre torrefadoras de especialidade em vários lugares do mundo.

Café de Ruanda e Burundi: os cafés das mil colinas

Bourbon: a variedade que dá o tom

Se tem uma palavra que resume o café de Ruanda e Burundi, é Bourbon. A variedade, uma das mais tradicionais do universo cafeeiro, predomina nas lavouras da região e ajuda a explicar por que esses cafés costumam ter um perfil tão marcante: acidez viva, corpo médio e uma doçura que equilibra a xícara do início ao fim. É um estilo que conversa de perto com outros cafés africanos consagrados — quem já experimentou os grãos do SL28 e SL34 do Quênia, por exemplo, reconhece uma família de sabores vizinha, ainda que cada origem tenha sua própria assinatura.

Boa parte da fama do continente africano no mundo do café especial nasce dessa vizinhança entre países que compartilham clima e altitude, mas entregam xícaras diferentes entre si — e é essa diversidade que faz da África Oriental, para muita gente, o ponto de partida de qualquer conversa séria sobre café.

O que esperar na xícara

Quem prova cafés de Ruanda e Burundi costuma descrever uma acidez cítrica bem definida, lembrando frutas como laranja ou limão, acompanhada de uma doçura que remete a frutas vermelhas ou até mel. O corpo tende a ser médio, sem pesar, o que deixa a bebida agradável tanto em métodos filtrados quanto em preparos mais encorpados. É um perfil versátil, que agrada tanto quem gosta de cafés mais ácidos e vibrantes quanto quem prefere algo mais redondo.

Vale lembrar que café é fruta — e como toda fruta, o resultado na xícara depende de uma cadeia inteira de cuidados: da colheita no ponto certo ao processamento cuidadoso depois que os frutos chegam às estações de beneficiamento. Nessas regiões, boa parte do processamento ainda acontece de forma bastante artesanal, com lavagem cuidadosa dos grãos e secagem ao sol, etapas que ajudam a preservar a limpidez e a doçura que caracterizam esses cafés.

Um continente inteiro de origens para descobrir

Falar de café da África Oriental sem mencionar a Etiópia seria injusto: é lá, segundo a tradição mais difundida, que a planta do café teria sido descoberta pela primeira vez, e é de lá que vem uma diversidade genética de variedades que nenhum outro lugar do mundo reúne. Para quem quer entender de onde tudo começou, vale a pena conhecer um pouco mais sobre as origens do café etíope — um pano de fundo que ajuda a situar Ruanda e Burundi dentro de um contexto maior.

Mais do que uma curiosidade de origem, esses cafés carregam também uma história de reconstrução: nas últimas décadas, produtores de Ruanda e Burundi investiram em qualidade e em melhores práticas de cultivo e processamento como forma de reposicionar a região no mercado internacional, e os resultados começam a aparecer nas prateleiras de cafeterias especializadas ao redor do mundo. É um caminho construído com trabalho de muitas famílias produtoras, colina após colina.

Na próxima vez que encontrar um saco de café rotulado como Ruanda ou Burundi numa torrefação de especialidade, vale a pena experimentar. É uma chance de provar um pedaço das mil colinas da África Oriental — e de entender por que essa região, apesar de discreta em tamanho, ocupa um lugar tão especial no mapa mundial do café.

Fotos: capa por Ana Kenk; imagem interna por Michael Burrows — via Pexels.