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Histórias e Curiosidades sobre Café

Bourbon: a ilha que batizou o café

Antes de ser variedade famosa, Bourbon era uma ilha no Índico onde o café mudou — hoje Reunião. A viagem do grão que ganhou nome de ilha e conquistou o mundo.

Mariana Figueiredo Mariana Figueiredo · 4 min de leitura

Tem café que carrega nome de gente, de método, de país. E tem um que carrega nome de ilha. Bourbon não nasceu como apelido bonito de saco de grãos: é o nome antigo de um pedaço de terra vulcânica no meio do oceano Índico, e foi lá que uma muda trazida de longe se transformou na linhagem que hoje sustenta boa parte do café que o mundo bebe.

Uma ilha que já teve outro nome

O território existe até hoje, só que não se chama mais Bourbon — é a ilha da Reunião, território francês perto de Madagascar, com vulcão ativo, relevo íngreme e um clima que varia de praia a altitude fria em poucos quilômetros. No período colonial francês, porém, o nome era outro, e foi sob esse nome antigo que a ilha entrou pra história do café como um laboratório involuntário: pequena, isolada, com solo vulcânico fértil e microclimas variados dentro do mesmo território.

Bourbon: a ilha que batizou o café

A muda que veio do Iêmen

A planta de café não é originária da ilha. Ela chegou trazida do Iêmen, região que já cultivava café havia gerações e que, por muito tempo, foi praticamente a única porta de saída do grão para o resto do mundo. Não há como cravar datas exatas nem quantidade de mudas nesse tipo de relato — o que se sabe com razoável segurança é que a introdução aconteceu ainda no século XVIII, dentro da lógica colonial de tentar reproduzir em outro solo uma cultura valiosa que até então dependia de um único ponto de origem. Deu certo. Mais que certo: a planta se adaptou tão bem ao novo ambiente que começou a se comportar de um jeito diferente do café original.

Isolamento, mutação e uma linhagem nova

É aqui que a história vira genética. Isolada geograficamente, exposta a um solo e a um clima distintos, a população de cafeeiros da ilha foi acumulando mutações espontâneas e sofrendo seleção natural e humana ao longo de gerações — sem cruzamento com outras linhagens de fora, porque não havia com o quê cruzar por ali. O resultado foi uma variedade com identidade própria, que passou a ser reconhecida e cultivada como tal e recebeu o nome do lugar onde nasceu: Bourbon. Quando produtores levaram mudas dessa variedade para a América Latina, ela virou uma das duas grandes bases genéticas do café arábica cultivado no continente — a outra sendo a Típica. Boa parte das variedades que qualquer apreciador de café especial conhece hoje descende, direta ou indiretamente, dessa linhagem: a Caturra é uma mutação natural do Bourbon, e cultivares como o Catuaí nasceram de cruzamentos que passam justamente pela Caturra. Chamar o Bourbon de avó de metade das variedades modernas não é exagero.

Cores diferentes, mesma família

Uma curiosidade que confunde quem está começando a estudar café: Bourbon não é uma variedade única de cor única. Dentro da própria linhagem existem cerejas que amadurecem em tons distintos, e entender a diferença entre o bourbon amarelo e o vermelho ajuda a enxergar como uma mesma base genética se desdobrou em variações sutis de sabor e aparência ao longo do tempo. E a família não parou de se diversificar: produtores em diferentes países seguiram observando e selecionando novas mutações, o que deu origem a variantes mais recentes, caso do bourbon rosa, de cereja rosada, cada vez mais procurado por quem busca perfis de xícara diferentes dentro da mesma linhagem histórica.

O grão raro que ainda nasce na ilha

E a Reunião, a antiga Bourbon? Continua produzindo café, embora em escala pequena se comparada aos grandes países produtores. O destaque de lá é uma mutação rara chamada Bourbon Pointu, também conhecida como Laurina — um grão de formato alongado, baixo teor de cafeína naturalmente e xícara considerada delicada por quem já provou. É um café caro, difícil de achar fora da ilha e cultivado em pouquíssima quantidade, quase um símbolo de que a história começou ali e, de certa forma, nunca foi embora de vez. Da próxima vez que alguém falar em “bourbon” pensando só na variedade, vale lembrar que antes dela existir havia uma ilha — e foi essa ilha que deu nome a um dos cafés mais influentes do planeta.

Fotos: capa por Balázs Gábor; imagem interna por 1500m Coffee — via Pexels.