Seu café está sendo coado...

Pular para o conteúdo
Métodos de Preparo de Café

Karlsbader: a cafeteira de porcelana que dispensa filtro de papel

A Karlsbader usa um filtro de porcelana em duas camadas e não pede papel nem pano. Como funciona esse método antigo e que tipo de café ele entrega.

Mariana Figueiredo Mariana Figueiredo · 4 min de leitura

Tem coador que já nasce pronto para durar a vida toda, sem trocar filtro nenhuma manhã. É o caso da Karlsbader, uma cafeteira de porcelana que dispensa completamente o papel e também o pano — e que, mesmo pouco falada por aqui, segue firme em cozinhas que preferem um café com mais corpo. O nome dela vem de Karlsbad, o antigo nome alemão de Karlovy Vary, cidade na atual Chéquia famosa havia séculos por sua tradição em porcelana fina. Foi dessa cultura ceramista que saiu a ideia de um coador feito inteiramente de louça, peça que virou sinônimo de um jeito específico de coar café.

Duas peças de porcelana, nenhum papel

A Karlsbader funciona com duas peças de porcelana encaixadas uma sobre a outra. A peça de cima recebe o pó e a água; a de baixo tem a função de coar, com pequenas aberturas na base por onde o café passa até a xícara ou a jarra. Não existe elemento extra: sem disco de papel, sem saquinho de pano, sem tela metálica. É a própria porcelana, moldada com a geometria certa, que faz o papel de filtro. Essa simplicidade é também o que explica sua durabilidade — não há peça de reposição, então basta lavar bem depois de cada uso.

Vale notar a diferença de família: enquanto a Karlsbader aposta em porcelana pura, a maior parte dos coadores que viraram populares no mundo inteiro depende de outro material para reter o pó. É o caso do filtro de papel criado por Melitta Bentz, que resolveu o problema da borra de um jeito completamente diferente — trocando a porcelana perfurada por uma folha descartável. São duas soluções para o mesmo desafio, separando pó de líquido, só que com resultados bem distintos na xícara.

Karlsbader: a cafeteira de porcelana que dispensa filtro de papel

Moagem grossa e despejo com calma

Por não ter papel para segurar as partículas mais finas, a Karlsbader pede um pouco mais de atenção na hora de moer e servir. A recomendação costuma ser moagem grossa, parecida com a usada em prensa francesa, para reduzir a quantidade de pó que consegue atravessar as aberturas da porcelana. O despejo também precisa ser lento e em movimentos circulares, dando tempo para a água entrar em contato com o café antes de descer — parecido em espírito com o cuidado que outros métodos sem papel pedem, como mostra este comparativo entre filtro de papel, pano e permanente. Pressa é o maior inimigo desse coador: com água rápida demais, mais partículas passam e o café fica mais barrento do que o desejado.

Um café com mais corpo — e alguma turbidez

O resultado de quem usa Karlsbader costuma ter mais corpo e mais óleos do que um café coado em papel, já que nada retém essa camada gordurosa que o papel normalmente absorve. É um perfil parecido, guardadas as proporções, com o que se sente numa prensa francesa: bebida mais encorpada, sabor mais presente na boca. A contrapartida é que alguma finura do pó tende a passar para a xícara, deixando o café um pouco menos limpo visualmente do que um coado tradicional. Para quem gosta de sentir a textura do café e não se incomoda com uma leve sedimentação no fundo da xícara, essa característica costuma ser vista como parte do charme do método, não como defeito.

O cuidado que substitui o filtro descartável

Como não existe papel para jogar fora a cada preparo, a limpeza da Karlsbader carrega uma responsabilidade que outros métodos terceirizam para o filtro descartável. Os óleos do café tendem a impregnar os poros da porcelana com o tempo, e resíduo acumulado pode deixar sabor rançoso no café seguinte — por isso vale lavar bem as duas peças logo após o uso, sem deixar o pó secar grudado na base perfurada. A moagem uniforme também pesa mais aqui do que em métodos com papel: partículas muito irregulares tendem a entupir algumas aberturas e deixar outras passando rápido demais, o que desequilibra a extração. Não é um método que exige moedor caro, mas recompensa quem mói com regularidade e lava o coador com atenção, tratando a porcelana quase como se fosse o próprio filtro reutilizável.

Fotos: capa por Linken Van Zyl; imagem interna por Olha Ruskykh — via Pexels.