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Histórias e Curiosidades sobre Café

A primeira cafeteria do Brasil: onde tudo começou

Antes das redes e do espresso, houve um primeiro balcão servindo café no Brasil (Rio de Janeiro, século XIX, casas de café do centro).

Mariana Figueiredo Mariana Figueiredo · 5 min de leitura

Antes das redes com wi-fi grátis e do espresso tirado em segundos, o café brasileiro passou décadas sendo servido num balcão simples, numa xícara sem muito luxo, para quem parava ali por perto. Não existe um registro único e incontestável apontando “a primeira cafeteria do Brasil” — o que existe são relatos de cronistas e pesquisadores que, juntos, desenham como o hábito de tomar café fora de casa nasceu e cresceu no Rio de Janeiro, cidade que por muito tempo foi o coração comercial e social do país.

Do grão que chegou por acaso ao hábito que virou rotina

Conta a lenda que o café chegou ao Brasil ainda no século XVIII, trazido por um militar que teria conseguido as primeiras mudas em território estrangeiro — episódio contado e recontado ao longo dos anos, com detalhes que variam conforme quem narra. O que se sabe com mais segurança é que, dali em diante, a planta se espalhou pelo Rio de Janeiro e por outras regiões, e o café deixou de ser curiosidade botânica para virar parte do dia a dia urbano. Séculos depois, o grão que saía das lavouras seguiria caminho até o mar, escoado por portos que se tornariam sinônimo da bebida — uma história que você confere com mais detalhes em como o porto de Santos virou sinônimo de café.

A primeira cafeteria do Brasil: onde tudo começou

As primeiras casas de café do Rio

É por volta das primeiras décadas do século XIX que os relatos da época começam a mencionar estabelecimentos dedicados especificamente a servir café — não mais só em casa, mas em locais públicos, com mesas, xícaras e um dono para atender. Cronistas da época citam nomes como o de uma casa popularmente apelidada em homenagem ao sobrenome de seu proprietário, um português que se tornou figura conhecida entre estudantes e frequentadores do centro da cidade. Esse tipo de estabelecimento funcionava perto de faculdades e repartições públicas, e virou ponto de parada de quem circulava pelo centro do Rio.

Vale o alerta: datas e nomes exatos variam de fonte para fonte, e é comum que diferentes cronistas apontem estabelecimentos distintos como “os primeiros” — o que sobra de consenso é o cenário geral, não um recorde fechado. Por isso, mais do que cravar um único nome e ano, vale entender o tipo de lugar que era: simples, sem luxo, movido a conversa e cafezinho fumegante.

A Rua do Ouvidor e o café como ponto de encontro

Conforme o século XIX avançava, o hábito de tomar café fora de casa deixou de ser exceção e virou costume estabelecido, e uma rua em especial concentrou boa parte dessa vida social: a Rua do Ouvidor, no centro do Rio. Ali se instalaram cafés, confeitarias, livrarias e lojas, e a região virou point de escritores, políticos, comerciantes e curiosos que queriam ver e ser vistos. Não era incomum que decisões de negócio, fofocas da cidade e debates literários acontecessem entre um gole e outro, em mesas de madeira e xícaras que iam e vinham sem parar.

Essa cena — gente reunida em volta do café, conversando sem pressa — é, de certa forma, o ancestral direto das cafeterias de hoje. A diferença é que, naquela época, não existia espresso nem cardápio de bebidas geladas: era café coado, quente, em xícaras pequenas, e o motivo de ir até lá era mais o encontro do que a bebida em si.

Um hábito que continuou mudando com o tempo

Décadas mais tarde, novos capítulos se somariam a essa história. A chegada de imigrantes trouxe consigo outros jeitos de preparar e de beber café, com cantinas e balcões que aos poucos foram remodelando a cena das cidades brasileiras — um processo que teve a imigração como um dos seus grandes empurrões, como mostra este outro texto sobre a imigração e o café no Brasil. Cada leva de novidade foi se somando ao que já existia, sem apagar a raiz: a ideia de que café, desde muito cedo por aqui, sempre foi desculpa para parar, sentar e conversar.

Hoje, quando alguém entra numa cafeteria de bairro, pede um espresso e senta para trabalhar ou colocar o papo em dia, está repetindo — com outra roupagem — um gesto que já se fazia no Rio de Janeiro há mais de duzentos anos. Os nomes exatos dos primeiros balcões podem se perder em versões divergentes de cronistas antigos, mas o espírito por trás deles atravessou os séculos praticamente intacto: café bom é sempre motivo de companhia.

Fotos: capa por João Pavese; imagem interna por Tima Miroshnichenko — via Pexels.