Existe um café que chega à xícara com menos cafeína sem passar por nenhum processo industrial, sem descafeinação, sem solvente, sem vapor d’água. É a Laurina, também chamada de Bourbon Pointu, uma das variedades mais raras e curiosas do universo arábica. Ela não é uma invenção de laboratório: é uma mutação natural que a planta guardou há séculos, e que só nos últimos tempos voltou a chamar atenção de produtores e curiosos do café.

Uma mutação, não uma receita
A Laurina surgiu como uma variação espontânea do bourbon, provavelmente na Ilha Reunião, no Oceano Índico — território historicamente ligado à própria origem do nome “bourbon” no café. O apelido “Pointu” vem do formato do grão, mais afilado e alongado do que o bourbon tradicional. Por muito tempo, essa planta quase desapareceu: a baixa produtividade fez muitos cafeicultores abandonarem seu cultivo em favor de variedades mais rentáveis. Só décadas depois, entusiastas e pesquisadores voltaram a resgatar mudas remanescentes, e hoje a Laurina aparece, ainda em pequena escala, em algumas lavouras especiais ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

Por que ela tem menos cafeína
A explicação está na própria genética da planta. Diferente do café descafeinado, que passa por um processo depois da colheita para remover a cafeína dos grãos já formados, a Laurina simplesmente produz naturalmente menos dessa substância enquanto o fruto se desenvolve na planta. Não há intervenção nenhuma: é uma característica que já nasce com o cafeeiro, transmitida de geração em geração pelas sementes. Cientificamente, ainda se discute o mecanismo exato por trás dessa produção reduzida, mas o resultado prático é conhecido entre quem estuda variedades: uma bebida com uma carga de cafeína claramente abaixo da média do arábica comum, sem que ninguém precise mexer no grão depois da colheita.
Vale lembrar que esse teor menor não significa “sem cafeína” — a Laurina continua sendo um café com cafeína, só que em quantidade reduzida perto de outras variedades. Não vamos citar números aqui: os valores variam bastante conforme solo, clima, processamento e método de preparo, e o mais honesto é tratar isso como uma tendência da variedade, não como uma dose fixa.
Como ela se compara a outras variedades de arábica
Dentro da grande família do café arábica, existe uma diversidade enorme de perfis, como mostramos neste guia sobre variedades de café arábica como bourbon, catuaí e geisha. A Laurina se destaca justamente por reunir baixa cafeína natural com um perfil sensorial descrito como delicado, adocicado e com acidez suave — características que lembram, em parte, o próprio bourbon do qual ela descende, só que ainda mais sutil. É esse conjunto que faz da Laurina um objeto de curiosidade tanto para quem estuda genética do café quanto para quem simplesmente gosta de provar rótulos incomuns.
Uma curiosidade, não uma prescrição
É tentador pensar na Laurina como “a solução” para quem quer tomar menos cafeína, mas vale um cuidado: sensibilidade à cafeína, sono e questões de saúde variam de pessoa para pessoa, e um café naturalmente mais leve em cafeína não substitui orientação profissional para quem tem alguma restrição específica. Se cafeína é uma preocupação real no seu dia a dia, o caminho mais seguro é conversar com um profissional de saúde — a Laurina entra aqui como uma curiosidade botânica, não como recomendação de consumo.
Um capítulo raro na história do café
Ainda assim, é fascinante pensar que, entre milhares de variedades cultivadas ao redor do mundo, uma planta tenha guardado essa característica silenciosamente, à espera de ser redescoberta. A Laurina segue rara, cultivada em pouca escala, mas carrega um lembrete simpático: às vezes a natureza já resolveu, sozinha, um problema que a indústria tentou resolver depois com processos e máquinas.
Fotos: capa por Rafael Y.; imagem interna por Susan Flores — via Pexels.


