Pular para o conteúdo
Variedades de Café

Sidra: a variedade que encantou os campeonatos de barista

A Sidra apareceu no Equador, tem perfil floral intenso e virou queridinha de campeonato. O que se sabe (e o que ainda se discute) sobre a origem dessa variedade.

Mariana Figueiredo Mariana Figueiredo · 4 min de leitura

Tem variedade de café que demora décadas para ser notada. A Sidra não. Ela apareceu nas rodas de degustação e, em pouco tempo, já estava sendo servida em finais de campeonato de barista, com juízes anotando notas florais e uma intensidade que lembrava café etíope — o tipo de xícara que faz todo mundo na mesa parar de conversar por um segundo e perguntar “espera, isso é café?”.

Uma fama que nasceu no Equador

Foi no Equador que a Sidra ganhou o destaque que a levou para o mapa mundial do café especial. O país, que já vinha investindo em cafés de origem com perfil sensorial muito marcado, encontrou nessa variedade um argumento forte: xícaras com aroma floral pronunciado e uma doçura que se sobrepõe ao amargor tradicional do café. Não é à toa que ela passou a aparecer com frequência em competições internacionais de barista nos últimos anos, disputando atenção com nomes que já eram consagrados no mundo do café especial.

Sidra: a variedade que encantou os campeonatos de barista

O parentesco com a Geisha — e por que a comparação é inevitável

Quem acompanha o universo dos cafés especiais não demora a puxar o paralelo: a Sidra lembra o fenômeno que a variedade Geisha provocou quando saiu do anonimato e virou sinônimo de café raro e caro. Assim como a Geisha, a Sidra tem um perfil sensorial que foge do padrão — mais parecido com o que se espera de um café etíope do que com a maioria dos cafés latino-americanos. Essa semelhança não é coincidência: é justamente o que alimenta o mistério em torno de sua origem.

De onde ela realmente veio? Ainda não há consenso

Aqui está a parte mais curiosa da história: ninguém tem certeza absoluta de onde a Sidra veio. Por um tempo, ela foi apresentada como um cruzamento entre outras variedades já conhecidas no meio cafeeiro. Depois, estudos genéticos levantaram outra hipótese, apontando um parentesco mais próximo com variedades de origem etíope — o que ajudaria a explicar por que o perfil de xícara lembra tanto os cafés daquela região, berço histórico do café. As duas versões convivem hoje, e é bem possível que a resposta definitiva ainda dependa de mais pesquisa. Em vez de ser um problema, essa indefinição virou parte do charme: a Sidra é uma variedade que ainda está sendo entendida, e isso deixa qualquer amante de café curioso para experimentar antes mesmo de saber a resposta completa.

O que justifica tanto barulho na xícara

Para quem prova pela primeira vez, a Sidra costuma surpreender pela combinação pouco comum: floral no aroma, intensidade que não é agressiva e uma limpeza no final de boca que lembra chás mais do que café tradicional. É esse conjunto que a torna candidata frequente a notas altas em avaliações sensoriais rigorosas — o tipo de café que costuma flertar com a faixa dos 85 pontos ou mais nos sistemas de pontuação usados pelo mercado de especiais. Não é todo lote que chega lá, claro — a pontuação depende de processamento, altitude, cuidado na colheita e uma dezena de outras variáveis. Mas o potencial genético da variedade ajuda a explicar por que ela virou queridinha de torrefadores que caçam grãos diferenciados.

Vale a pena procurar?

Se você é do tipo que gosta de sair da zona de conforto do café do dia a dia, vale ficar de olho em torras que tragam a Sidra no rótulo. É uma daquelas variedades que ainda não virou lugar-comum nas prateleiras brasileiras, o que torna a experiência ainda mais especial quando aparece. E na próxima roda de conversa sobre café, já dá pra chegar com a história pronta: uma variedade que conquistou campeonatos, divide pesquisadores sobre sua própria origem e ainda assim entrega, goela abaixo, uma das xícaras mais surpreendentes do café especial atual.

Fotos: capa por Rafael Y.; imagem interna por Masud Allahverdizade — via Pexels.